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“Minha imagem carrega o retrato da violência”, diz Deborah Fabri

Deborah Fabri, uma jovem de 19 anos, perdeu a visão de um olho depois da ação de políciais durante protesto contra o golpe, em setembro deste ano. Ela foi uma das primeiras vítimas do estado de exceção que o país enfrenta. Em sua página no Facebook, Deborah demonstra que, apesar da perda irrecuperável, a repressão de Temer não a intimidou nem tirou a sua coragem. Confira a íntegra do texto publicado no último dia 11.

“Minha imagem carrega o retrato da violência. “A menina que perdeu a visão na manifestação”. Minhas memórias carregam o trauma, a dor e o desespero daquele dia 31 de agosto na Avenida Paulista, mas não é só isso. Minhas memórias carregam muito mais, a minha motivação, minha energia e meus propósitos são muito maiores do que qualquer dor que aquele dia me causou. “Você se arrepende de ter ido?” Jamais. Como sempre digo, manifestação é uma forma legítima de expressão popular. É um direito e aqueles que o exercem não devem ser perseguidos e violentados. Eu estava em pleno exercício de um direito que todos nós temos e que é um fundamento de uma sociedade livre.

“Valeu a pena?” Não faz sentido perguntar isso a mim, é melhor perguntar para a PM se valeu a pena ter utilizado seus instrumentos de dominação das classes reacionárias e dos monopólios imperialistas para lesionar permanentemente alguém que estava em exercício de seu direito, não cometendo crime algum. Não fui as ruas defendendo outros interesses, defendendo uma causa diferente daquelas dos explorados e oprimidos. Não fui até lá defendendo outra causa, e isso os facistas nem ousam discutir, alegando que “mereceu pq foi lá pra cometer atos de terrorista”. É mais apelar para a desonestidade, inventar mentiras sobre mim, ter essa convicção mentirosa dizendo que sou terrorista violenta do que aceitar a real violência que aconteceu, a policial. Mas não estou aqui para provar nada sobre meus atos, aliás, quem está afirmando essas coisas que me apresentem provas. A culpada não sou eu. É uma instituição que alega ter compromisso com defesa da vida, da integridade física e da dignidade da pessoa humana mas que é violenta contra nós mesmos, que nos mata e nos machuca.

Que além de terem me lesionado gravemente, quando tive que dar depoimento na delegacia da PM, com a desculpa de que queriam achar o “policial culpado” (como se isso fizesse sentido, já que culpado são todos eles, toda aquela tropa tirânica jogando bombas de graça nas pessoas para machucar, qualquer bomba poderia ter acertado qualquer pessoa, já que jogavam muitas e em cima de nós) mas me cansam de perguntas intermináveis e depois viram o jogo pra uma artilharia pesada fazendo perguntas invasivas e carregadas, perguntas que possuem uma afirmação embutida, de modo que ela não pode ser respondida sem uma certa admissão de culpa, como por exemplo “Você foi para lá sabendo dos riscos? Você faz parte de algum partido? Você faz parte de algum grupo social? O que motiva a polícia ter tacado bombas? Você disse uma vez na intetnet numa discussão sobre história (…)”

deborar_fabriE chegava os outros colegas interferindo no depoimento pedindo “pergunta ela aí se ela já não sabia que manifestação era violento” “pergunta ela aí se ela não concorda com tais atos” “pergunta ela aí …” eu nunca me senti tão intimidada, e após eu falar que considerava manifestação uma forma legítima de expressão popular, foi aí que vieram “Você considera legítima depredação de patrimônio público/privado?” E eu respondi assim “vocês consideram legítimo a depredação de uma pessoa?”. Quem estava ali para ser investigado era a PM, não eu. Será que ela estava nas ruas pra proteger o povo? Mas pera, proteger o povo… do povo? Quem está lá pra proteger o povo é o próprio povo, somos nós. A PM existe para proteger a propriedade privada e é um instrumento da burguesia. Eu tenho a plena convicção de que quem está compromissado com a vida, somos nós lutadores do povo, não eles. E também sei de que eu não preciso ter medo deles, nós não precisamos ter medo da PM, porque são eles que tem medo de nós, na nossa capacidade de revolucionar o mundo.

Eu estou consciente da perda física que tive, e os fascistas cantam vitória diante dessa violência, mas é aí que está a fraqueza dessas pessoas, acreditam que uma lesão pode acabar com os meus pensamentos, minhas ideias, minhas qualidade e meu exemplo, ignoram que o caráter de uma mulher de ação é apenas uma das múltiplas facetas de sua personalidade. E nesse sentido, o ganho é muito maior, pessoas que fazem e dão tudo pela causa dos humildes crescem a cada dia, carrego em mim o espírito do internacionalismo proletário como dever, pois aí encontrei o abrigo da alma e isso ninguém vai tirar de mim. E eu vou continuar lutando, pois é uma tarefa ininterrupta. Lutando, não por ódio e nem por vingança, mas por amor ao povo. Todos os dias é preciso lutar para que este amor pela humanidade manifeste-se em fatos concretos que sirvam de exemplo e sejam mobilizadores.

Meu sangue correu sobre esta terra, meu sangue correu pela redenção dos explorados e oprimidos. Esse sangue correu por todos os explorados, por todos os oprimidos; esse sangue correu por todas aquelas pessoas com suas bandeiras dançantes; e esse sangue corre para que não aconteça mais com ninguém o que aconteceu comigo. E nessa terra tem sangue de todos aqueles que eu luto junto. “Nossa liberdade e nosso cotidiano têm a cor do sangue e são cheios de sacrifícios.”

Não peço para que compreendam nossa luta, peço para que a respeite. Pois da mesma forma, eu também não compreendo muitos de vocês, pois estamos a mercê da violência, da exploração, da opressão que se mostra escancarada em vários âmbitos e quem não se mobiliza está muito alheio ao mundo aqui, e eu não consigo compreender isso. Eu só peço o respeito, pois qual é o seu conceito de felicidade pra poder julgar o meu? Vocês podem ver minhas fotos ensanguentada durante o desespero de ter sido gravemente ferida por uma bomba que explodiu sobre meu corpo… mas saibam que eu estou na melhor fase da minha vida, genuinamente feliz, eu e meu olho esquerdo estavam no lugar certo eles queriam estar lá. Eu amo ser militante, a militância me salvou e me deu forças para lutar pelo povo e por mim, a luta é coletiva e eu também faço parte do povo, do povo que sofre mas ergue suas bandeiras e me inspira cada vez mais. A militância foi a melhor coisa que me aconteceu, não há dor física que supere o sentimento de olhar pra um companheiro e dizer “eu estou muito feliz de estar aqui com vocês” as lágrimas da dor não chegam nem perto dessas lágrimas de felicidade. Experimentei uma dor e sofrimento de uma das crueldades desse sistema, mas eu estou luta pra mudá-lo e vocês?

Não é fácil, nunca foi, tô passando por uma barra, o trauma foi enorme, ainda to num processo de recuperação físico e psicológico, a recuperação e a adaptação não é fácil, andar com o olho esquerdo sempre fechado, inchado, com algumas cicatrizes fazendo com que todo mundo ao meu redor sempre pergunte não é fácil, superar os medos, traumas as lembranças que revivem o momento menos ainda, ter tentado voltar as aulas e não ter conseguido não foi fácil, lidar com a exposição absurda que tive não foi fácil também, as idas ao hospital nem sempre são fáceis, lidar com os processos burocráticos e judiciais também não, não foi/é fácil pra mim e nem pras pessoas que me ajudam, estou passando por um momento muito sensível, agradecendo todos os dias pelas pessoas maravilhosas que eu tenho do meu lado me dando forças, pelo time❤ . Eu sou forte mas também muito sensível, e eu acho isso bom, pois ainda bem que eu sinto e ainda bem que eu sou forte pra aguentar sentir e seguir em frente e continuar nessa luta.

“Por que eu? Por que comigo?” Essa pergunta não tem sentido, aconteceu, foi comigo, e eu o que eu penso é como eu pretendo lidar com tudo isso para seguir em frente e inspirar e mobilizar outras pessoas. Eu sei e eu posso conviver com esse trauma pelo resto da minha vida o que eu não posso é conviver ignorando toda essa crueldade, toda essa violência, toda essa opressão que assola o nosso povo. O que eu não posso viver é com a falta de compaixão e dignidade humana. E apesar de ter ganhado conhecimento como “a menina que perdeu a visão na manifestação” eu diria que é o contrário. Foram nas manifestações que eu ganhei a visão, foram lá que eu enxerguei as pessoas na sua maior plenitude, é lá que eu enxergo a esperança, são lá que meus sentidos ficam mais aguçados, minha vida se enxe de significado e eu sinto os sentimentos mais puros. O mundo que eu enxergo hoje, apenas dois olhos nunca enxergarão, mais importante que a visão de um olho é enxergar com o coração. Minha imagem carrega o retrato da violência, mas meu coração carrega força, resistência e amor.”

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