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Quilombos urbanos, focos de resistência no Rio de Janeiro

Encravados no Rio de Janeiro, três quilombos mantêm viva a memória das lutas que os originaram. Surgidos antes do fim da escravidão, eram locais onde escravos fugidos ou libertos se reuniam para sobreviver. Hoje, permanecem como focos de resistência.

Por Luisa Lucciola

Em pleno século 21, os quilombos de Sacopã, Pedra do Sal e Camorim resistem – ao apagamento da memória, ao desaparecimento cultural ou à especulação imobiliária – e sobrevivem. Entre mansões e prédios luxuosos na Lagoa Rodrigo de Freitas (na zona sul), o terceiro metro quadrado mais caro da cidade, repousa um enorme terreno de mata atlântica.

O quilombo Sacopã foi criado no fim do século 19 por escravos fugidos de Macaé, que receberam o terreno da proprietária para quem trabalhavam.

A família cresceu no mesmo ritmo da cidade, que se urbanizou nessa direção. A atenção de construtoras e imobiliárias tornou a Lagoa uma região nobre. “Se ainda estamos aqui é porque fui muito teimoso. Já tentaram de tudo para tomar essa terra, mas ela é nossa por direito”, afirma Luiz Sacopã, de 74 anos, o mais velho descendente dos fundadores.

Ele não consegue contar por quantas tentativas de tomada da área de 18 mil metros quadrados passou.

Do vizinho que tentou plantar maconha no terreno para incriminá-los aos três dias que passaram vigiados no local por um policial militar, o que mais abalou a família foi a proibição, pela Justiça estadual, de realizarem eventos culturais, sob alegação de que faziam barulho de madrugada.

“Foi um golpe muito duro, pois vivíamos desses eventos, feijoadas, aulas de capoeira. A gente era muito cuidadoso, tudo terminava às 20h, 21h”, afirma José Cláudio Torres Freitas, sobrinho de Luiz, durante um evento do Dia da Consciência Negra. “É o único dia que a gente pode fazer alguma coisa. Não teriam coragem de interromper, né?”, ironiza.

A resistência do Sacopã e de outros quilombos nacionais ganhou força em 2003, com o Decreto nº 4887, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, regulamentando a demarcação e a titulação das terras dos descendentes de quilombolas.

O processo, contudo, é burocrático e ocorre em duas etapas – primeiro, pela Fundação Cultural Palmares, e, depois, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Atualmente, esses três quilombos do Rio já foram reconhecidos, mas aguardam a titulação pelo Incra.

Engolidos pela cidade

O quilombo da Pedra do Sal, na Saúde (centro), perto do porto, reunia muitos dos escravos que não eram vendidos quando chegavam da África. Lá também nasceu um dos primeiros terreiros de candomblé do Rio.

“A região não era o que é hoje, era muito isolada. Mas foi invadida, engolida pela cidade”, conta Damião Braga, líder quilombola local. Ocorreram muitas disputas, como com a Igreja Católica, que ganhou na Justiça a propriedade de várias casas da área.

Hoje, há 25 famílias descendentes da comunidade quilombola da Pedra do Sal, mas poucas vivem lá. Mesmo com a certificação da Fundação Palmares e o reconhecimento do vizinho Cais do Valongo como patrimônio da humanidade pela Unesco, os remanescentes têm dificuldade de retornar ao território que é seu por direito.

“Hoje temos um apoio internacional, mas restam conflitos. Imóveis vazios foram ocupados, e não é simples tomar de volta”, explica.

História e racismo

Adilson Almeida conta, orgulhoso, a história dos seus antepassados – escravos fugidos que, no século 16, fundaram, em um dos primeiros engenhos do Rio, o quilombo Camorim, em Jacarepaguá (zona oeste). Com a abolição da escravidão, em 1888, o grupo voltou a ocupar a área da Casa Grande, agora abandonada.

Embora o Camorim fique afastado dos bairros mais concorridos, ele também tem sua própria história, mais recente, de disputa e resistência imobiliária.

Em 2014, quando ainda não possuíam a certificação das terras pela Fundação Palmares, as 20 famílias que se declaram quilombolas acordaram um dia com grande parte de sua floresta destruída: ali seria construído o condomínio para hospedar os árbitros dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Apesar de denunciarem, Almeida e a Associação Cultural do Camorim (Acuca) nunca conseguiram recuperar o terreno.

Enquanto aguarda a tramitação do processo no Incra, Almeida se mantém esperançoso.

Em 2016, uma pesquisa arqueológica na região encontrou mais de 7 mil fragmentos de artefatos dos séculos 16 e 17, e a área passou a ser definida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como sítio arqueológico. “Com isso, temos uma sólida base jurídica, é difícil que aconteça de novo algo como a invasão de 2014”, explica.

Além da luta por reconhecimento, quase 130 anos após a abolição da escravidão, os quilombolas ainda precisam combater especulação imobiliária, violência e o fator mais cruel: o racismo. “Percebemos como as pessoas olham o negro na Zona Sul. Tem uns que acham que são melhores que os outros, fazer o quê?”, indaga Luiz.

Fonte: Carta Capital

Portal Vermelho

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