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Política externa de Bolsonaro dá as costas para o Brasil

O anúncio pelo primeiro-ministro de Israel de que o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, vai mesmo transferir a embaixada brasileira no país para Jerusalém é mais uma ação de submissão ao regime dos Estados Unidos.

Em declarações à agência de notícias portuguesa Lusa, o pesquisador brasileiro Pedro Lima do Nascimento considerou que as futuras relações entre o Brasil e a África no governo de Jair Bolsonaro vão sofrer uma «mudança dramática» e correm o risco de não se desenvolverem como no passado. «Vai haver uma mudança dramática (nas futuras relações entre o Brasil e África) em comparação com o que eram nos governos de Lula, Dilma e Temer. É possível e bastante provável que as relações Brasil-África não se desenvolvam tanto», disse Pedro Lima do Nascimento, especialista em Relações Internacionais.

Ele acredita ainda que esse afastamento terá na figura do futuro ministro das Relações Exteriores de Bolsonaro um papel preponderante. «Ernesto Araújo (futuro ministro das Relações Exteriores do Brasil) é um diplomata bastante desconhecido, até recentemente não tinha sequer um cargo de embaixador, e é uma pessoa bastante isolada dentro do Ministério, mas que foi elevado ao centro da política ministerial», descreveu o especialista, acrescentando que uma aproximação com os Estados Unidos está na mira do futuro governante brasileiro.

Bolsonaro, declaradamente admirador do presidente norte-americano Donald Trump, assim como Ernesto Araújo, têm o seu foco colocado nessa superpotência para parceiro internacional, ao contrário dos anteriores governos brasileiros, nomeadamente do Partido dos Trabalhadores (PT), que deram primazia a parcerias comerciais mais próximas com a China. «Ele (Ernesto Araújo) deixa claro que a sua prioridade, assim como do governo de Bolsonaro, será a relação com os Estados Unidos. Inclusive, ele nem sequer menciona muito a Europa, e quando o faz é para tecer críticas, como é o caso da política migratória ou críticas de base religiosa. Recentemente até falou em construir uma aliança cristã entre o Brasil, os EUA e a Rússia, contra o ateísmo da Europa e da China», declarou o especialista brasileiro.

Âmbito estratégico

Foi durante os anos do presidente Lula que o Brasil aumentou e consolidou as relações com os Estados do continente africano, com o intuito de transformar o país sul-americano num «ator global independente», segundo Pedro Lima do Nascimento. Essa aproximação com a África levou a que se gerassem críticas, pela direita, que acusaram o Brasil de se associar a «ditaduras». Contra tais imputações, o chefe da diplomacia brasileira do governo de Lula, Celso Amorim, argumentou que eram nações muito jovens, o que justificava o fato de ainda não terem consolidado os seus sistemas democráticos.

No entanto, para o especialista em relações internacionais, no âmbito estratégico «não faz muito sentido que o Brasil se oponha a ditaduras africanas porque estão geograficamente distantes» e porque não irá obter nenhum benefício «político ou económico» com essa oposição. Com Bolsonaro liderando o Brasil, Pedro Lima do Nascimento acredita que as relações com África não se extinguirão, mas também não irão proliferar. «O mais provável é que continuem com relações de trabalho, investimentos e relações comerciais, mas que não se aprofundem muito», disse.

Quando questionado acerca dos futuros vínculos entre Brasil e Portugal, o especialista afirmou que a linha seguida pela próxima presidência brasileira será em conformidade com aquela que for adotada para a União Europeia. «A relação com Portugal, provavelmente vai-se espelhar de acordo com a relação com a União Europeia, investindo em acordos comerciais, especialmente no que abrange o protecionismo agrícola. (…) Mas agora com a eleição de Bolsonaro, a União Europeia ganha uma boa desculpa para enterrar essas negociações (com o bloco económico Mercosul) (…) e proteger o mercado interno europeu, assim como os produtos agrícolas europeus», afirmou Lima do Nascimento.

Guerra comercial

A alinhamento subalterno da diplomacia brasileira ao Estados Unidos foi saudado pelo Departamento de Estado norte-americano. Em comunicado, o regime de Washington disse que aplaude «o presidente eleito Jair Bolsonaro por defender a soberania brasileira diante das práticas comerciais e de crédito predatórias chinesas”, anunciando a vinda do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, para a posse de Bolsonaro no dia 1º de janeiro. O comunicado também diz que os Estados Unidos vão “trabalhar com o Brasil para apoiar os povos de Venezuela, Cuba e Nicarágua, que estão lutando para viver em liberdade contra regimes repressivos». «Nós exaltamos o compromisso do presidente eleito Bolsonaro de se opor a tiranos”, vociferou o documento norte-americano.

Em declarações ao jornal O Globo, uma alta funcionária do Departamento de Estado norte-americano disse que os Estados Unidos celebraram declarações de Bolsonaro que afastam o novo governo da China, o maior parceiro comercial do Brasil. Durante a campanha, o presidente eleito chegou a afirmar que o país asiático pretendia “comprar o Brasil”. Essas declarações, afirmou a funcionária, estão de acordo com a posição norte-americana sobre a China. Os Estados Unidos iniciaram neste ano uma guerra comercial contra os chineses, como parte da agenda protecionista do presidente americano Donald Trump.

Exportador acanhado

Esse desenho de política externa é exatamente o oposto do anunciado por Lula quando ele tomou posse, em 2003. A verdade é que os motivos norte-americanos para essa nova ofensiva vão além do comércio. São objetivos de Estado. Naquela época, os interesses específicos e consolidados politicamente do regime de Washington foram contrapostos por políticas soberanas, que defendiam os interesses nacionais. Esse é um dos principais motivos do fel que os conservadores destilam contra os governos do ciclo progressista e as lideranças do Itamaraty daquele período.

Até então, o Brasil eraum exportador acanhado. Várias vezes, e em muitos aspectos, canhestro. No imaginário neoliberal existe a idéia de que o mercado externo se reduz aos Estados Unidos e à Europa. Empresa brasileira molhando os pés em águas internacionais do Sul do planeta é uma imagem proscrica do seu ideário. Quando a política externa do governo Lula chegou, o Brasil logo mostrou como desataria o nó da política comercial brasileira, responsável por seguidos déficits desde a implantação do “Plano Real”: o governo sairia pelo mundo, disputando terreno em vários mercados. Para aqueles líderes do Itamaraty, eventuais perdas em uma trincheira mundo afora poderiam ser compensadas por ganhos em outra.

Em agosto de 2002, Lula, ainda candidato à Presidência da República, entregou uma carta a Fernando Henrique Cardoso (FHC), durante o encontro com os candidatos no Palácio do Planalto, em Brasília, na qual disse que era urgente “gerar um elevado superávit comercial, fundado no aumento expressivo das exportações, de modo a diminuir a vulnerabilidade do país com relação à volátil liqüidez internacional”. “Isso requer, de imediato, uma ampla ofensiva diplomática, que mobilize todas as embaixadas e consulados brasileiros para apoiar o esforço exportador do Brasil. Exige, além do mais, uma ação decidida nas frentes de negociação internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), contra o protecionismo injustificado e os subsídios indevidos dos países ricos que prejudicam as vendas de nossos produtos, como o suco de laranja, o açúcar, a soja e o aço, entre outros”, dizia a carta.

Na sua posse, Lula disse que, “em relação à Alca (Área de Livre Comércio das Américas), nos entendimentos entre o Mercosul e a União Européia, na OMC (Organização Mundial do Comércio) o Brasil combaterá o protecionismo, lutará pela sua eliminação e tratará de obter regras mais justas e adequadas à nossa condição de país em desenvolvimento”. “Buscaremos eliminar os escandalosos subsídios agrícolas dos países desenvolvidos que prejudicam os nossos produtores privando-os de suas vantagens comparativas. Com igual empenho, esforçaremo-nos para remover os injustificáveis obstáculos às exportações de produtos industriais. Essencial em todos esses foros é preservar os espaços de flexibilidade para nossas políticas de desenvolvimento nos campos social e regional, de meio ambiente, agrícola, industrial e tecnológico”, afirmou.

Preceitos democráticos

Lula disse ainda que a grande prioridade da política externa do seu governo seria “a construção de uma América do Sul politicamente estável, próspera e unida, com base em ideais democráticos e de justiça social”. “Para isso é essencial uma ação decidida de revitalização do Mercosul, enfraquecido pelas crises de cada um de seus membros e por visões muitas vezes estreitas e egoístas do significado da integração. O Mercosul, assim como a integração da América do Sul em seu conjunto, é sobretudo um projeto político. Mas esse projeto repousa em alicerces econômico-comerciais que precisam ser urgentemente reparados e reforçados”, disse o presidente.

Lula disse com palavras claras que priorizaria as relações com os países vizinhos. “Cuidaremos também das dimensões social, cultural e científico-tecnológica do processo de integração. Estimularemos empreendimentos conjuntos e fomentaremos um vivo intercâmbio intelectual e artístico entre os países sul-americanos. Apoiaremos os arranjos institucionais necessários, para que possa florescer uma verdadeira identidade do Mercosul e da América do Sul. Vários dos nossos vizinhos vivem hoje situações difíceis. Contribuiremos, desde que chamados e na medida de nossas possibilidades, para encontrar soluções pacíficas para tais crises, com base no diálogo, nos preceitos democráticos e nas normas constitucionais de cada país”, afirmou.

Novas relações internacionais

O presidente também falou das relações de seu governo com os Estados Unidos e a União Européia. “Procuraremos ter com os Estados Unidos da América uma parceria madura, com base no interesse recíproco e no respeito mútuo. Trataremos de fortalecer o entendimento e a cooperação com a União Européia e os seus Estados-Membros, bem como com outros importantes países desenvolvidos, a exemplo do Japão”, disse. Mas ressaltou que não deixaria de dar atenção a outras regiões do planeta. “Aprofundaremos as relações com grandes nações em desenvolvimento: a China, a Índia, a Rússia, a África do Sul, entre outros. Reafirmamos os laços profundos que nos unem a todo o continente africano e a nossa disposição de contribuir ativamente para que ele desenvolva as suas enormes potencialidades”, afirmou Lula.

O discurso reforçou o aspecto político das novas relações internacionais do Brasil. “Visamos não só a explorar os benefícios potenciais de um maior intercâmbio econômico e de uma presença maior do Brasil no mercado internacional, mas também a estimular os incipientes elementos de multipolaridade da vida internacional contemporânea. A democratização das relações internacionais sem hegemonias de qualquer espécie é tão importante para o futuro da humanidade quanto a consolidação e o desenvolvimento da democracia no interior de cada Estado”, disse o presidente. Com essa política, o Brasil ajudou a despachar o conservadorismo sul-americano, no que dizia respeito a políticas externas, agora de volta, anunciando mais uma etapa de entregusimo de submissão aos interesses norte-americanos.

Portal Vermelho

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