Brasil: um país sem rumo em plena catástrofe sanitária

Vídeo de reunião ministerial comprova o descaso do governo com o combate à pandemia, que na altura já vitimara 165 pessoas (hoje são 22 mil mortes). Mas para o inquérito que avalia se houve interferência de Bolsonaro no comando da Polícia Federal, gravação não exibiu dados novos. Por Luis Leiria.

Havia enormes expectativas em relação ao registo em vídeo da reunião do conselho de ministros do governo de Jair Bolsonaro, realizado no dia 22 de abril, e apontado pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro como sendo a prova inequívoca da interferência do presidente na Polícia Federal para proteger os seus interesses pessoais e da sua família, e nomeadamente de investigações sobre os seus filhos.

A gravação, cuja divulgação foi autorizada sexta-feira pelo juiz do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, acabou por ficar muito abaixo das expectativas: não constituiu a “bala de prata”, a “arma fumegante” capaz de comprovar inequivocamente esse crime de responsabilidade de Bolsonaro.

Mas as quase duas horas de reunião governamental foram, mesmo assim, importantes para mostrar até que ponto este governo e o seu presidente estão num beco sem saída.

Nenhum plano de combate à Covid-19

Naquele dia 22 de abril, ao mesmo tempo em que presidente e ministros se multiplicavam em insultos e impropérios – 37 palavrões foram proferidos durante a reunião, 29 dos quais pelo próprio Bolsonaro –, eram confirmados 2.678 novos casos de Covid-19 e 165 pessoas morriam da doença. Seria de esperar que a pandemia fosse um dos temas principais da reunião. Mas ministros e presidente mal a citaram ou, quando o fizeram, foi para propor, como o ministro do Ambiente, que se aproveitasse o momento em que as atenções dos média estão concentrados na Covid-19 para revogar todos os regulamentos de proteção ambiental. Não poderia haver melhor demonstração de que o governo não tem qualquer plano, qualquer política para combater a pandemia.

Ou seja: o que se disse no vídeo foi importante, mas mais importante ainda foi o que não foi dito. Um mês depois, a realidade é eloquente: 347.398 casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus, 22.013 mortes, segundo o Ministério da Saúde (link is external)(vistos às 22h42, hora de Lisboa, do domingo 24 de maio). O que faz Bolsonaro diante do crescimento incontrolável da pandemia? Desenvolve uma campanha contra a única arma que comprovadamente salva vidas: o isolamento social. Ao mesmo tempo, faz propaganda de uma droga, a cloroquina, que não traz nenhum benefício comprovado aos doentes de Covid-19 e até pode ser prejudicial. A sua política é claramente eugenista (os velhos já vão morrer mesmo, uns anos antes não faz diferença) e genocida, por ser responsável por milhares (é provável que chegue a centenas de milhar) de mortes. Aliás, é revelador o facto de Bolsonaro ainda não ter nomeado um ministro da Saúde, depois de ter demitido os dois últimos. Ocupa o cargo interinamente um general que é especialista em logística, não em Saúde.

Para que serviu o vídeo?

De qualquer forma, o vídeo é uma peça importante para, junto com outras evidências e levando em conta a atuação efetiva de Bolsonaro após a reunião – demitiu o superintendente da Polícia Federal, cujo substituto demitiu o diretor da PF do Rio de Janeiro, o alvo do presidente – provar a interferência real de Bolsonaro na Polícia Federal, com o objetivo de travar as investigações sobre o desvio de verbas públicas e outras atividades ilícitas, como a ligação às milícias, do filho Flávio Bolsonaro.

O vídeo também serviu de retrato de alguns ministros, como o da educação, que defendeu “pôr todos os vagabundos na cadeia, começando pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ou a da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que falou em prender governadores e prefeitos (presidentes de câmara) por algumas das medidas adotadas para enfrentar a pandemia.

Outro momento inesquecível foi quando Bolsonaro, virando-se para Moro, defendeu a sua política em relação às armas: “Estou armando o povo porque não quero uma ditadura, não dá para segurar mais. Quem não aceitar as minhas bandeiras, família, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado, quem não aceita isso está no governo errado.”

Pedido de impeachment conjunto da esquerda

Se o atual inquérito vai considerar que Bolsonaro realmente interferiu ilegalmente na PF, ou se vai terminar “em pizza”, como se diz no Brasil, não sabemos, mas o certo é que Bolsonaro tem se beneficiado, até agora, da apatia da oposição e particularmente da esquerda.

Oxalá a iniciativa de apresentar um pedido de impeachment em nome de sete partidos de esquerda PT, PSOL, PC do B, PCB, UP (Unidade Popular pelo Socialismo), PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) e PCO (Partido Causa Operária), e de 400 organizações dos movimentos sociais seja um passo importante para inverter esta situação.

No manifesto divulgado pelos subscritores, aponta-se que “o Brasil vive duas crises gigantescas que se alimentam entre si: a pandemia do novo coronavírus e a crise política de um governante incapaz, irresponsável e insensível às milhões de vítimas”. O texto denuncia Bolsonaro como “o principal inimigo das regras elementares de isolamento social para a contenção da pandemia”, com uma conduta que “piora o quadro geral, estimulando aglomerações, menosprezando o perigo” e coincidindo “com a diminuição do isolamento em muitos estados do Brasil”.

“Diante da pandemia, ficou ainda mais evidente o perfil genocida e irresponsável do Presidente Jair Bolsonaro”, assinala o documento, terminando por apelar “a todas e todos os brasileiros a se somarem nessa luta para salvar vidas e a democracia brasileira”.

O problema é que para poder seguir o seu curso normal, o impeachment teria de iniciar os seus trâmites na Câmara dos Deputados, cujo presidente, Rodrigo Maia, não mostrou qualquer interesse em fazê-lo. Maia guardou na gaveta os 36 pedidos de afastamento do presidente que lhe foram entregues até agora.

A grande contradição da atualidade é que a pressão social que poderia desengavetar os pedidos de impeachment simplesmente não pode ganhar as ruas devido às regras sanitárias. Os únicos atualmente a ir às ruas são os fanáticos bolsonaristas, convencidos de que a pandemia não existe; mas as suas manifestações são cada vez menos participadas.

Diante da calamidade que atinge o país, a oposição estaria em condições de vencer a guerra das ruas; mas essa disputa, por enquanto, não parece poder avançar.

Nova bomba no inquérito

No dia 17 de maio, entretanto, já estourara uma nova bomba que veio acrescentar uma nova linha às às investigações do inquérito a Bolsonaro: o empresário Paulo Marinho, ex-apoiante de Bolsonaro, denunciou em entrevista à Folha de S. Paulo que Flávio Bolsonaro, filho do presidente, fora alertado com antecedência pela Polícia Federal sobre a operação que teria como alvo o seu ex-assessor Fabrício Queiroz. Flávio teria sido avisado da existência da operação entre o 1º e o 2º turnos das eleições presidenciais que elegeram Jair Bolsonaro presidente, por um delegado da Polícia Federal simpatizante da sua candidatura. De acordo com Marinho, os polícias teriam retardado a operação, então sigilosa, para que não ocorresse no meio do 2º turno, o que traria prejuízo à campanha de Bolsonaro.

A novela ainda vai continuar.

esquerda.net

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