Manifestações em 140 cidades contra racismo e injustiça isolam Trump

À indignação que não cessa nas ruas dos Estados Unidos, de costa a costa, há nove dias, contra o racismo e a injustiça, vem se somando uma rotunda repreensão, de parte de vastos círculos da sociedade norte-americana, aos arroubos de Trump sobre ‘dominar’ a ferro e fogo os protestos (ou ‘ele próprio o fará’, trazendo os militares).

Ameaça tão bizarramente espelhada no ataque a uma multidão pacífica em Washington para que ele fosse até uma igreja posar com uma bíblia para uma foto e na autoproclamação como “presidente da lei e da ordem”, lema que plagiou de Nixon.

Assim, os brados das ruas de “Sem Justiça, Sem Paz”, “George Floyd” e “Não consigo Respirar” convergem com mensagens dos quatro ex-presidentes norte-americanos vivos, Jimmy Carter, Bill Clinton, W. Bush e Barack Obama, se posicionando pela liberdade de manifestação e pela empatia para com o sofrimento da população negra diante do tóxico legado da segregação e escravidão, e até com declaração do atual secretário da Defesa, Mark Esper, contrário ao envio de unidades militares às cidades.

O respeito aos manifestantes foi repetido por policiais e membros da Guarda Nacional em diversos pontos dos EUA

140 CIDADES E O MESMO BRADO

Na quarta-feira, as manifestações se repetiram por 140 cidades, basicamente pacíficas e, em vários lugares, conseguindo unir manifestantes e policiais no gesto de ajoelhar, que o jogador de futebol Colin Kaepernick transformou em símbolo antirracista, e neste momento especialmente se contrapõe à asfixia com o joelho vista no assassinato de Floyd pelo policial branco de Minneapolis.

Diante da arremetida de Trump contra as manifestações, começam a aparecer cartazes contra o fascismo. O empenho de Trump de fazer de provocadores, larápios e alguns desavisados o pretexto para passar por cima de qualquer meneio à convivência democrática, acabou desmentida por relatório do próprio serviço secreto a que a Reuters teve acesso, e que considerava que se tratava, principalmente, de elementos “oportunistas” que aproveitavam da situação.

Vídeos mostraram gangues em Nova Iorque que iam de carro à noite, saqueavam e entravam rapidamente de volta. Fontes progressistas advertiram ainda que supremacistas brancos intervieram no final de manifestações pacíficas, para promover quebra-quebra e pequenos incêndios. Em Chicago, advogados advertiram que certos grupos de policiais andavam insuflando distúrbios.

“GEORGE ERA DA PAZ”

Os familiares de Floyd têm se empenhado em conclamar a que a resposta ao linchamento de Floyd seja pacífica. “George era da paz, era o Gigante Gentil”, disse seu irmão, Terrence.

Na terça-feira, em Houston, cidade onde Floyd se criou, uma marcha com 60 mil pessoas, com a polícia se solidarizando, homenageou a vítima e exigiu justiça. Dois filhos de George, o mais velho, Quincy, 27, e a caçula, Gianna, 6, foram a Minneapolis, e visitaram o local onde ele caiu assassinado, que se tornou uma espécie de memorial.

Os governadores, que no enfrentamento da pandemia tiveram uma ação decisiva diante da incompetência e obscurantismo do governo Trump, agora, com as manifestações, também vêm cumprindo o papel de isolar a guinada intentada pelo bilionário inquilino da Casa Branca.

O governador de Illinois, JB Pritzker, que na videoconferência havia dito a Trump que era “a retórica que sai da Casa Branca” que está fazendo a situação “piorar”, rejeitou a “noção de que o governo federal pode enviar tropas para o estado de Illinois” quando quiser, em entrevista à NPR.

O que Trump planejou é “ilegal”, acrescentou, dizendo que não conhecia “nenhum governador que queira fazer isso”. Ele também acusou Trump de tentar “fazer-se soar como um homem forte – quase como um ditador”.

“JUSTIÇA IGUAL SOB A LEI”

Mas partiu do ex-chefe do Pentágono Mattis a condenação mais incisiva aos atos de Trump da última semana, depois de chamar de “saudável e unificadora” a exigência dos protestos de “Justiça Igual sob a Lei”.

“Não devemos nos distrair com um pequeno número de infratores. Os protestos são definidos por dezenas de milhares de pessoas de consciência que insistem que vivemos de acordo com nossos valores — nossos valores como pessoas e nossos valores como nação”, assinalou.

Após relembrar seu juramento há 50 anos de apoiar e defender a constituição, que fizera ao entrar para o exército, o general Mattis disse jamais ter imaginado que “tropas que fizeram esse mesmo juramento seriam ordenadas sob qualquer circunstância a violar os direitos constitucionais de seus concidadãos — muito menos para fornecer uma foto bizarra para o comandante-em-chefe eleito, com a liderança militar ao lado”.

O ex-secretário de Defesa chamou a rejeitar “qualquer pensamento de nossas cidades como um ‘espaço de batalha’ que nossos militares uniformizados são chamados a ‘dominar’. Em casa, devemos usar nossos militares apenas quando solicitados, em raras ocasiões, pelos governadores estaduais”.

Militarizar nossa resposta – acrescentou -, “como testemunhamos em Washington, D.C., cria um conflito — um falso conflito — entre a sociedade militar e civil” e corroi “o terreno moral que garante um vínculo confiável entre homens e mulheres de uniforme e a sociedade que eles juraram proteger, e do qual eles próprios fazem parte”.

SLOGAN NAZISTA

Por alguma razão, o general de marines achou que era importante reiterar, no atual momento político nos EUA, as instruções dadas às tropas de que “o slogan nazista para nos destruir … era ‘Dividir e Conquistar’”, e acrescentou que “nossa resposta americana é ‘na união há força’”.

O caminho, reitera Mattis, é “convocar essa unidade para superar essa crise”, acrescentando que Trump “é o primeiro presidente da minha vida que não tenta unir o povo americano — nem sequer finge tentar”. “Em vez disso, ele tenta nos dividir”, enfatizou.

O ex-secretário de Defesa do próprio Trump concluiu dizendo que o que se está testemunhando nos EUA agora são “as consequências de três anos sem liderança madura”.

Para Mattis, “podemos nos unir sem ele, baseando-nos nas forças inerentes à nossa sociedade civil”. O que, apontou, “não será fácil, como os últimos dias mostraram, mas devemos isso aos nossos concidadãos; às gerações passadas que sangraram para defender nossa promessa; e aos nossos filhos”.

Papiro

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