O porno autoritário de Trump tem muitos fãs

Uma nação liderada por um homem que é um cobarde, um rufia, um mentiroso e um sádico está a ser policiada por forças que o admiram e ao que ele representa.

O Twitter começou finalmente a eliminar uns quantos tweets de Donald Trump por fomentarem a violência ou espalharem mentiras. A empresa deveria eliminar uma série deles por espalhar pornografia – pornografia autoritária.

O Presidente Bicos de Papagaio(*) acordou no sábado no seu bunker da Casa Branca em êxtase com a suposta atuação dos Serviços Secretos para o proteger dos manifestantes na sexta-feira à noite.

«A linha da frente foi substituída por agentes frescos, como se fosse magia», desabafou ele. A multidão tinha sido pacífica, mas «se não o tivesse sido, teriam sido recebidos com os cães mais cruéis e as armas mais ameaçadoras que já vi. Aí as pessoas teriam ficado gravemente feridas, no mínimo».

«No mínimo.» Ele gostou mesmo de escrever isto. E também que um funcionário dos Serviços Secretos lhe tinha dito: «Colocamos os jovens na linha da frente, senhor, eles adoram, e é um bom treino». (Ele tinha que incluir o «senhor».) E concluiu a sua torrente com um convite para uma orgia violenta: «Esta noite, pelo que percebi, é NOITE MAGA NA CASA BRANCA??» (Ele apagou este).

Entretanto, o New York Times relata(link is external) que os assessores de Trump estão «a tentar fazer com que ele deixe de usar retórica violenta, mantendo uma postura de lei e ordem». Hum, claro. Eu também. E estamos a ter o mesmo êxito.

Uma nação liderada por um homem que é um cobarde, um rufia, um mentiroso e um sádico está a ser policiada por forças que o admiram e ao que ele representa. O presidente não tem a pose de macho de um Derek Chauvin, o polícia de Minneapolis (agora despedido) que assassinou George Floyd ajoelhando-se no seu pescoço durante quase nove minutos, com uma mão no bolso como se estivesse à espera de um café com leite. Trump é mais como os três cobardes que ajudaram a iniciar a crueldade e depois olharam para o lado enquanto um ser humano gritava pela sua mãe e depois morria.

O chefe do sindicato da polícia de Minneapolis(link is external), o sargento Bob Kroll, é um destacado líder do «Cops for Trump», há muito acusado de racismo e de violações dos direitos civis pelos ativistas da justiça de Minneapolis. Juntou-se a um comício de Trump em outubro passado e disse isto(link is external) à multidão: «A administração Obama e as suas algemas e opressão à polícia foram hediondas». A primeira coisa que o Presidente Trump fez quando tomou posse foi inverter a situação, livrar-se do regime [do Procurador-Geral Eric] Holder-Loretta Lynch e decidir começar a falar e a deixar a polícia fazer o seu trabalho, algemar os criminosos em vez de nós».

Mas, claro, não se trata apenas de Minneapolis. Durante todo o fim-de-semana, vimos imagens de polícias(link is external) em cidades de Los Angeles a Chicago e Nova Iorque a recorrerem à brutalidade contra manifestantes multirraciais, bem como jornalistas. Em Columbus, a deputada Joyce Beatty levou com gás pimenta da polícia. Em Seattle, foi uma criança de 9 anos.(link is external)

Obviamente, estamos a ser conduzidos pelo pior homem imaginável neste momento. Sim, como dizemos tantas vezes, Trump é um sintoma do racismo metastático que atinge o país, não a causa. Mas, como já vimos com outras doenças, seja cancro ou Covid-19, os sintomas matam se não forem tratados.

O racismo branco é sem dúvida a doença, agravada pelo silêncio demasiado frequente e pela indiferença dos moderados brancos e dos liberais, como nos advertiu Martin Luther King Jr., a partir daquela prisão de Birmingham, há quase 60 anos. Mas assistimos este fim-de-semana à violência de outros brancos, muitos dos quais afirmam apoiar os manifestantes. Nem todos os manifestantes brancos. Muito poucos. Mas, a par das notícias de uma escalada de confrontos por parte de polícias brancos, vieram queixas de membros da comunidade negra, de Minneapolis a Brooklyn, de que foram muitas vezes os brancos que transformaram o protesto de pacífico em violento. Os primeiros relatos(link is external) feitos pelos líderes do Minnesota de que os piores infratores vinham de fora da área não foram até agora fundamentados; os registos de detenção mostram que a grande maioria das pessoas detidas eram locais. Mais informação poderia mudar essa história.

Mas era seguramente verdade em alguns lugares. Uma jovem mulher branca de Catskill, Nova Iorque, foi acusada de atirar um cocktail Molotov a um carro com quatro polícias em Brooklyn, na sexta-feira à noite. Vimos uma jovem líder negra em Eugene a implorar em lágrimas aos manifestantes sobretudo brancos(link is external), que não vandalizassem uma loja. Em Pittsburgh(link is external), um protesto bem organizado tornou-se violento no sábado, quando elementos não associados aos organizadores começaram a fazer estragos em carros da polícia e outros bens. Em Baltimore(link is external) podemos ver os manifestantes brancos a desafiarem outra jovem negra, que lhes disse que, quando atiram ovos aos polícias, põem em risco vidas negras. Um retorquiu: «Já vos estão a matar». Que grande aliado, pá.

No sábado, o Procurador-Geral William Barr culpou elementos da esquerda e movimentos antifa pela violência. Pouco depois do meio-dia de domingo, Trump tweetou: «Os Estados Unidos da América vão classificar a ANTIFA como uma Organização Terrorista», um floreado fascista. Alguns dos manifestantes brancos podem estar ligados aos antifa, outros ao chamado black bloc, conhecido pela sua propensão à escalada para tácticas violentas. Alguns seriam nacionalistas brancos e membros das milícias, e outros poderiam ser infiltrados da polícia. Vai demorar algum tempo a perceber isto. Não devemos deixar que seja Trump a definir esse momento.

É claro que há muitos manifestantes negros que descarregam a raiva através da destruição de propriedades nestas cidades; não estão a ser ludibriados por agitadores brancos. Mas é duro ver jovens aventureiros brancos a desafiar a liderança negra. É fundamental que os brancos que se preocupam com a justiça racial e económica e que querem trabalhar nestas questões, seja protestando contra o assassinato de George Floyd ou enfrentando o racismo sistémico, procurem grupos negros e sigam as indicações dos líderes negros. Tivemos uma sorte incrível por terem morrido tão poucas pessoas neste espasmo nacional de ira fundamentada, de protesto digno, e de violência não facilmente defendida. Tivemos a sorte de nenhum empregado ter sido ferido quando pequenas empresas e organizações comunitárias sem fins lucrativos foram incendiadas em Minneapolis e noutros locais.

É importante sublinhar que a maioria dos protestos tem sido pacífica. No sábado à tarde, dezenas de milhares de pessoas apareceram no Harlem, onde vivo, sem violência (embora depois da meia-noite, muito depois de os protestos se terem dispersado, uma multidão entrou em confrontos com a polícia no meu bairro e várias pessoas foram presas). Em Flint (Michigan),(link is external) e Camden (Nova Jérsia) historicamente negros e devastados pela pobreza, os polícias juntaram-se aos protestos pacíficos, como fizeram em Santa Cruz, Califórnia. Em Denver(link is external), milhares de manifestantes deitaram-se de bruços e gritaram «Não consigo respirar» durante os nove minutos que Derek Chauvin levou para imobilizar e asfixiar George Floyd.

É uma pena que estas histórias estejam a ser ensombradas por imagens de violência – mas é quase como se a polícia o desejasse(link is external), e é por isso que continuam a prender indevidamente pessoas como o correspondente da CNN Omar Jimenez, e porque dispararam contra Ali Velshi, pivô da MSNBC, com uma bala de borracha em Minneapolis e lançaram gás pimenta contra jornalistas em Louisville, Detroit e outras cidades. Trump e os seus apoiantes vestidos de azul apreciam estas orgias de violência. Devemos resistir a dar-lhes o que eles querem.

Artigo publicado em The Nation(link is external) a 31 de maio 2020. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net.

Joan Walsh é jornalista e autora, correspondente de politica nacional no The Nation e colaboradora da CNN,

* NT: Os “bicos de papagaio” foram o diagnóstico do podólogo que permitiu a Donald Trump ser dispensado do serviço militar e da guerra do Vietname. Em 2019, as filhas do médico, já falecido, contaram ao USA Today que aquele atestado tinha sido um favor ao seu senhorio, Fred Trump, pai do atual presidente norte-americano.

Dossier 319: EUA: Protestos no país que não consegue respirar

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